18.5.07

Uma história de amor

Não me esqueço da primeira vez que a vi. Vinha voltando da escola quando ouvi sua voz. Atravessei a rua sem olhar e passei as próximas duas horas estático, em pé ali na calçada.
Descobrir onde ela estudava foi impossível, mudaria de escola na mesma hora. Crescemos e passamos um bom tempo sem nos ver. Era tão habitual ela aparecer sem avisar quanto fazer dessas aparições algo muito rápido.
Quando a vi novamente estava mudada. Ou nem tanto. Sempre teve dificuldade em fixar-se num lugar ou manter-se num emprego. Confesso que muitas vezes demoro a reconhecê-la. Outras nem sou capaz. Sua personalidade se multiplica com o tempo. Sobrevive geralmente por períodos mais curtos que o contrário. Muda o cabelo, as roupas, até o jeito de falar muda. Passa 3 anos sem mudar um só fio, ora muda 3 vezes o cabelo num só ano.
Cada vez que a encontro é uma mulher diferente, embora às vezes seja tão previsível que pareça programada. Após tê-la conhecido entendi o que as pessoas dizem sobre Déjà Vu ou almas de vidas anteriores. Conheço-a tão bem que sou até capaz de antecipar o que vai dizer.
Hoje em dia temos uma relação mais estável. Nos encontramos toda terça-feira às 20h30, 20h33 pra ser mais exato. De preferência na minha casa. Existem os encontros aos finais de semana, mas esses são raros e geralmente ocorrem em algum shopping center.
Nunca conheci sua família ou amigos fora do trabalho. Embora ela já fosse famosa entre todos que conheço e muitos que não. O pessoal do trabalho acha nossa história uma bobagem. Diz que eu preciso de uma mulher de verdade, que eu estou hipnotizado. Começo a pensar que talvez tenham razão. Semana passada mesmo, estava trocando de canal quando a peguei beijando um colega de trabalho. E pior. Era reprise. Logo eu que sempre apoiei sua carreira. Seu fã incondicional. Quero um tempo. Não vou pagar a TV a cabo este mês.

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